Barão da Mata - Verdades e Diversidades

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domingo, 4 de abril de 2010

FABULAZINHA DE DEUS ABANDONADO

Era um dia como outro qualquer, até que subitamente ouviram-se trombetas que encheram o céu e a Terra, e a voz do arcanjo Gabriel anunciou:
- Filhos do Senhor, parai todos e ouvi atentamente o que o nosso Deus tem a vos falar!
O mundo inteiro parou e silenciou. A voz do Senhor, bonita, grave, sonora, cheia de eco de uma acústica celestial, principiou:
- Filhos... tenho uma péssima notícia para vos dar.
O mundo, ainda quedado, agora se via aflito e lotado de curiosidade:
- Tendes visto que tudo tem piorado? As catástrofes naturais têm sido mais freqüentes. A ambição, mais do que nunca, tem gerado e alimentado as guerras. Os homens vêm agindo com o desamor e iniqüidade da era pré-cristã, como se tudo o que o Messias pregou não fosse para ser levado a sério. O crime a cada dia ganha mais corpo e força, pouco hoje se escondendo, tamanho o seu poder. Os maus políticos, já existentes na Antiguidade, permanecem invulneráveis, impunes, crescentes em número, existindo hoje numa maioria superior à da Antiga Roma.
"Não percebeis, filhos, o que está acontecendo?"
As pessoas permaneciam caladas, Deus prosseguiu :
-A Natureza vem sendo esmagada pelos homens, as espécies animais estão em processo de extinção mais acelerado. Tudo o que é ruim está crescendo em número e tamanho e tomando conta do mundo. O Big Brother Brasil vingou e é sempre campeão de audiência, os seus congêneres também arrebanham um tremendo público. Os programas de auditório têm a cada dia mais ibope. Todos os aparelhos de som tocam "funk" e pagode. Não percebeis o que ocorre? Não perecebeis?
Os habitantes da Terra permaneciam silentes, todos ainda aparvalhados de perplexidade.
- Pois eu vos digo, meus filhos. Preparai-vos para ouvir.
Seguiu o silêncio, Deus vociferou:
- Perdi a guerra para Satanás.
Um "oh!" geral, mundial e desolado. O Senhor continou:
- Mais do que isto, meus filhos... - uma grande pausa para rufarem os tambores, o Senhor tornou: - Perdi o poder.
Nunca se viu um "oh" tão desesperado, desolado, desalentado, tão geral e tão sonoro. Desmaios, gritos, ataques histéricos, internações, uma tempestade moral no mundo.
- Se quiserdes permanecer comigo - seguiu Deus - estarei sempre convosco. Mas ficai sabendo que agora nada mais posso, que, infelizmente, só o Diabo tem poder.
Despediu-se (até porque Deus é objetivo, não fica falando à toa):
- Até o momento em que algum de vós me quereis falar.
Alguns dias após o imensurável, mundial e descomunal choque, as pessoas começaram a comentar:
- E agora, o que será de nós?
- Pois é...
- Veja só! Deus sem poder, onde se viu?
- Uma desgraça! Agora o poder está nas mãos do outro.
- Outro?
- É, o outro!
- Outro?
- É. Aquele cujo nome não se deve falar.
- Ah, é...!!
- O outro...
- O outro...
- Cujo nome não se pode falar...
-... não se pode falar...
- Ora! Mas por que não??
- É! Por que não?
- Ora essa!
- É! Ora essa!
- Pensando bem, o outro sempre foi bem mais simpático... Deus sempre fechadão, lá na dele, muito sério, achando tudo imoral e errado...
- É. O outro sempre foi alegre, galhofeiro, gozador..
- Também sempre achei!
- Nunca proibiu a gente de nada. A gente sempre pôde sambar, se despir, cornear, beber, matar, farrear, colocar o pé na frente do garçom...
- Pois é! Muito mais liberal, muito mais sem frescura. Sempre deu à gente inteira liberdade.
- Apoiado! Acho que agora a gente vai ser muito mais feliz com o outro. E eu falo o nome dele, sim! Satanás, pronto!
- Também falo: Satanás!
- Onde se viu? A gente vivia numa repressão danada, agora vai ter liberdade e felicidade.
- Um Deus sem poder... De que adianta? Ora essa!
- É... Um Deus  sem poder... Onde se viu?
E assim o adesismo das interesseiras, ingratas e pouco solidárias pessoas foi feliz para sempre.

2010

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